Sábado, 9 de Janeiro de 2010

Nota breve

A generalidade das pessoas não compreende a minha posição quando digo que sou contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Claramente, não é uma questão de preconceito. Nem tão pouco é falta de compreensão para com aquelas pessoas que se vêem em situações incompreensivelmente difíceis em face de um quadro legal que lhes é desfavorável, descriminando-as.
Não sou, tão pouco, contra a existência legal do direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Pelo contrário, há muito que é minha convicção que todo este circo mediático gerado ao nível dos meios políticos é profundamente desnecessário. A revisão constitucional de 2004, ao acrescentar ao Artigo XIII da Constituição, que contém as disposições contra a discriminação em geral, as palavras “e orientação sexual”, deveria ter encerrado o problema. O artigo do Código Civil em que se define o casamento como contrato celebrado entre pessoas de sexo diferente tornou-se inconstitucional. Tudo o mais foi um alarde de autoridade, verdadeiramente uma aparatosa performance para mostrar quem manda.
Sou, isso sim, contra os moldes em que toda a reivindicação acabou por se processar, e os inevitáveis resultados que teve. O pensamento crítico contemporâneo, embuído de um espírito desconstrucionista, tem vindo a denunciar a forma como os movimentos e as identidades lgbt migraram de um discurso de direito à diferença - direito a uma dignidade própria sem necessidade de conformação a normas sociais sufocantes e impostas por maiorias silenciosas - para um discurso de aceitação na igualdade, que implica em si mesmo uma inconsciente mutação nas consciências lgbt que agora rejeitam muita da sua especificidade e dos seus valores próprios, que tantas vezes no passado entraram em rota de colisão com os valores conservadores da moral estabelecida, para procurarem, de forma que às vezes me parece, confesso, desesperada, que lhe seja reconhecido um único direito de fundo: o de partilharem agora dos valores que ditaram na origem a sua descriminação, marginalização e, diga-se, humilhação.
Sou absolutamente partidário de direitos iguais, de uma protecção inflexivelmente equitativa em face da lei, de uma mudança e evolução nas mentalidades. Mas incomoda-me profundamente que essa pretensa igualdade seja forjada nos moldes em que hoje assistimos: uma minoria em luta para poder fazer parte da maioria, que agora timidamente a aceita, silenciando uma potencial voz contestatária. Perdeu-se a voz, perdeu-se a oportunidade de uma luta por uma sociedade realmente justa, em que uma moral normativa sustentada pela maioria não possa marginalizar, espezinhar e em última instância suprimir formas de pensamento, eixos de valores, estilos de vida igualmente válidos e igualmente dignos.
O casamento entre pessoas do mesmo sexo, graciosamente concedido pela maioria a uma minoria cuja felicidade depende daquela, é um presente essencialmente envenenado. Não é um fruto da contestação, da reivindicação, mas um fruto da condescendência e do paternalismo. Em lugar de uma desejável desconstrução de um discurso, profundamente naturalizado, que legitima e sustenta uma única forma de vivência e sociabilidade, remetendo todas as outras para a marginalidade, triunfou uma espécie de reconstrução integrativa, em que se concedem certas regalias em troca do silêncio que nasce da adopção e da participação em valores que não são, a priori, os nossos.
Não é esta, parece-me, a maneira correcta de vindicar a nossa dignidade, nem de obter o que é nosso por direito. Só isso.

Sábado, 28 de Novembro de 2009

I think I will (give up)

It's not what you thought
When you first began it...
You got what you want
And you can hardly stand it tough,
by now you know

It's not going to stop...
It's not going to stop...
It's not going to stop, 'till you wise up...

You're sure there's a cure,
And you have finally found it!
You think one drink
Will shrink you 'till
You're underground
And living down,

But it's not going to stop...
It's not going to stop...
It's not going to stop, 'till you wise up...

Prepare a list for what you need
Before you sign away the deed,

'Cause it's not going to stop...
It's not going to stop...
It's not going to stop, 'till you wise up...

No, it's not going to stop 'till you wise up...
No it's not going to stop,
So just give up.

Aimee Mann, Wise Up

Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Na quieta geometria dos beirais
Estendem-se os panos planos inquietos
Os bairros velhos teimosamente tortuosos
Sob o olhar arrogante dos traçados rectos.

Dos contrastes, noite e dia, vão nascendo
Fugazes como sombras, como luz,
Melancólicos recantos que perdemos
Enquanto a solidez da noite nos seduz.

Tendemos a ser curvos, a ser esguios,
Como a cidade em que quietos calculamos
A possibilidade imaginada dos Estios.

Tendemos a ser rectos, a ser pobres,
Limpos, altos, com os ciprestes do dia
Em que se põe a olhar-nos, benevolente,
[a melancolia.

Segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

A man of many faces

Jay Jay Johanson, dia 13 de Novembro no Santiago Alquimista.
















Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

The Boy from Lisbon

Oh, but I watch him so sadly
How can I tell him I love him?
Yes, I would give my heart gladly
But each day when he walks to the sea
He looks straight ahead, not at me...

Domingo, 20 de Setembro de 2009

Mo Grá, Mo Anan Cara (ou, porque me lembro sempre de ti quando estou triste?)

Há anos que não vou a Sintra. Há dois anos, para ser mais preciso. Locus horrendus, se tal coisa existe. Locus tremendus, diria eu, do fundo da minha atabalhoada auto-comiseração.
Céus, como eu cresci. Sinto a idade nos ossos, falácias de um coração muito mais velho que a sua idade, envelhecido como uma ardilosa falsificação, com ácidos e fumos, enterrado, voluntariamente rasgado.
Engarrafei o passado. Envelheci-o em cascos de carvalho talhados com a foice do próprio tempo, e quando os julguei maturados, enterrei-os com os teus ossos, com o azul dos teus olhos. Já não sofro. Pergunto-me se alguma vez sofri, ou se não passou tudo de uma grande e torrencial descarga hormonal. Mas, que raio, sempre que estou triste, sempre... É de ti que eu me lembro. Primeiro de ti, só depois do resto.
Nunca te escrevi uma carta. Nunca te beijei - beijava esse outro que também és tu. Não sinto a tua falta. Nunca. Não te amo. Nunca te amei. Amava desesperadamente a ideia de ti. Mas a ti, nunca. E odiei-te, porque mataste a ideia de ti. Platónico? Talvez. Só um amor platónico resiste a um Narciso de si mesmo enamorado.
Mas basta. Sou feliz, mesmo nesta infelicidade de último dia de Verão anunciador desse tempo que em tempos foi nosso, do mesmo Outono com as mesmas cores, a mesma chuva. Não emitirei mais palavras amargas. Não chorarei mais o sal da minha existência, meio humana, meio angelical.
Basta.
Basta, meu amor.

Sábado, 19 de Setembro de 2009

Never early, he's always late...
The first thing you always learn
is that you always have to wait.